segunda-feira, 26 de março de 2018

SÍNDROME DE ASPERGER – Guia para Pais e Professores


SÍNDROME DE ASPERGER – Guia para Pais e Professores


Capítulo 1: Diagnóstico
Descrita inicialmente em 1944 pelo pediatra vienense Hans Asperger como forma de desordem da personalidade, com reconhecimento internacional na década de 90, a Síndrome de Asperger refere-se a crianças aparentemente normais, com habilidade intelectual normal, mas que não parecem capazes de entender as outras pessoas num nível esperado para sua idade.
Características clínicas principais:
·                     Falta de empatia
·                     Interação social imprópria, falta de reciprocidade, ingenuidade.
·                     Pouca habilidade para fazer amigos
·                     Fala repetitiva ou pedante
·                     Pobre comunicação não verbal
·                     Interesse intenso em certos assuntos
·                     Pobre coordenação motora
Diagnóstico:
1.             Uso de escalas padronizadas.
2.           Avaliação dos aspectos específicos das habilidades sociais, cognitivas, de linguagem, de movimentos e também aspectos qualitativos dos interesses da criança. Inclui uso dos testes psicológicos usuais, história do desenvolvimento e comportamento, observação dos professores e exclusão de diagnósticos diferenciais.
Média da idade do diagnóstico: 8 anos.
Caminhos para o diagnóstico:
1.            Diagnóstico de autismo nos primeiros anos de vida.
2.            Primeiro ano da escola.
3.            Expressão atípica de outra síndrome.
4.            Diagnóstico de outro membro da família.
5.            Desordem psiquiátrica secundária.
6.            Adulto com características residuais de Asperger.
Capítulo 2 : Comportamento Social
A pessoa com Asperger é vista por outras pessoas como sendo diferente devido ao seu comportamento social incomum.
Critérios diagnósticos:
Gillberg (1989): Falta de habilidade para interagir com outras crianças
                           Falta de interesse de interagir
                           Pouca compreensão dos sinais sociais
                           Comportamento socialmente e emocionalmente impróprio.
Critérios de comunicação não verbal que interferem no comportamento social:
·         Uso limitado de gestos
·         Linguagem corporal desajeitada
·         Expressão facial limitada
·         Expressão imprópria
·         Olhar parado, peculiar
Outros (Szatmari,1989): não perceber sentimentos dos outros.
Brincando com outras crianças:
·         Preferência de ficar sozinha ou com adulto
·         Não se vê como parte do grupo
·         Indiferença as pressões do grupo
Códigos de conduta
·         Não parece conhecer as regras informais da conduta social: pode dizer ou fazer coisas que ofendem ou incomodam outras pessoas
·         Rigidez com as regras que conhece
·         Impulsiva, age sem avaliar as conseqüências.
Técnica das histórias sociais: usada para capacitar a criança a entender situações específicas em que apresenta comportamento inadequado. Cria-se uma história onde a situação é descrita, destacando-se os aspectos sociais, as ações esperadas e informando o que está acontecendo e por que.
Utiliza-se quatro tipos de sentenças:  Descritivas: descrevem objetivamente onde a situação ocorre, quem está envolvido, o que estão fazendo e por que. Perspectivas: descrevem e explicam as reações e sentimentos das outras pessoas.   Diretivas: dizem o que é esperado que a criança faça ou diga. Controle: desenvolvem estratégias para ajudar a pessoa a lembrar o que fazer ou como entender a situação. Podem ser sugeridas pela criança e incluir seu interesse especial. Deve haver um equilíbrio nos tipos de sentenças com 2 a 5 sentenças descritivas e perspectivas para cada sentença diretiva e/ou de controle. Deve ser escrita na primeira pessoa do singular e no tempo presente.
Programas para Comportamento Social Adequado
1. Pais: modelar o comportamento da criança, mostrando-lhe o que fazer ou dizer em situações comuns do dia a dia, tais como: Começar, participar e terminar uma brincadeira. Flexibilidade e cooperação. Explicar o que deveria ter dito ou feito em uma situação onde agiu inadequadamente. Convidar um amigo para brincar. Estimular atividades em grupo supervisionadas.
2. Professores: a sala de aula oferece muitas oportunidades para aprender comportamento adequado. Algumas estratégias: Use as outras crianças como modelos: quando a criança estiver tendo comportamento inadequado, lembre de pedir para que observe as outras crianças e copie o que estão fazendo. Encorage atividades de cooperação quando houver tarefas que possam ser feitas em pequenos grupos, evitando competição. Seja um modelo de interação com a criança: demonstre tolerância, aponte o comportamento apropriado e seja encorajadora, deste modo as outras crianças da classe tendem a imitar estas atitudes. Reconheça e elogie alunos que se mostrem colaboradores. Explique a criança meios alternativos de buscar ajuda, com outras crianças ou outros membros da equipe. Estimule a amizade com as outras crianças, dentro e fora da sala de aula.
Grupos de habilidades sociais: desenvolvem atividades para ampliar a percepção dos sinais sociais e das atitudes apropriadas as diversas situações. Podem ser feitas a partir de situações reais ou imaginarias, com uso de teatro, vídeos, jogos de mímicas, exercícios, discussões.
Amizades: crianças com Asperger muitas vezes precisam ser estimuladas em suas amizades e orientadas a reconhecer as qualidades de um relacionamento que definem a amizade. Podem fazer atividades onde descrevem atividades que os amigos fazem juntos, como reconhecer manifestações de afeto e identificar palavras e gestos que expressam afeição. Devemos estar atentos para reconhecer quando imitam comportamentos inadequados de seus amigos e quando são vítimas de armações por parte de outras crianças.   
Adolescentes com Asperger tornam se mais conscientes de suas dificuldades e geralmente precisam de mais ajuda em relação aos amigos.
Contato olho a olho: pode haver diferentes graus de dificuldade de manter contato ocular ao interagir com outras pessoas. A pessoa com Asperger não percebe a importância do olhar na comunicação, não consegue interpretar as mensagens sutis no olhar de seu interlocutor e não consegue fixar seu olhar no rosto da outra pessoa por mais que alguns segundos,
Emoções: a falta de empatia da criança com Asperger não significa que ela não tenha sentimentos, mas que fica confusa com os sentimentos das outras pessoas e tenha dificuldade em expressar suas próprias emoções. Seu rosto e linguagem corporal não expressam suas emoções no grau esperado e ela não reconhece bem as mudanças na linguagem corporal das outras pessoas.
Estratégias para compreender emoções
O principio básico é explorar uma emoção de cada vez como um tema de um projeto. Por exemplo, iniciar com a emoção feliz. Providenciar muitas ilustrações com o tema feliz, canções, álbum de fotos, listar eventos que fazem uma pessoa feliz. Graduar os diferentes níveis de felicidade. Pode-se indicar diferenças nos conceitos das pessoas e entrevistar pessoas sobre o que as fazem felizes. Incluir obras de arte que expressam felicidade. Pesquisa do que podemos fazer ou dizer para fazer alguém feliz. Uso de espelho para que a pessoa faça uma expressão feliz. Jogo de completar uma face em branco com traços que expressam felicidade. Fazer desenhos de situações felizes. Interpretar uma pessoa feliz.
Em seguida, podemos passar para uma emoção oposta, como tristeza, trabalhando também como reagir quando outra pessoa expressa a emoção e como podemos expressa-la.
Então podemos passar para outras emoções, raiva, ansiedade, frustração, satisfação, surpresa, orgulho, ciúme e vergonha. Podemos idealizar um caderno para explorar os acontecimentos e pensamentos que despertam as diferentes emoções. Como atividade de grupo, podemos fazer o jogo dos chapéus dos sentimentos, onde cada um escolhe um chapéu com o nome de um sentimento e conta aos outros situações que despertaram esse sentimento.
Devemos ensinar a criança a dizer quando não está conseguindo identificar a emoção que outra pessoa expressa.
Estratégias para expressar emoções
Uso de um desenho de “termômetro” para graduar emoções. Fazer caderno para explorar as respostas apropriadas a situações específicas. Por exemplo, como você se sentiria e o que diria ou faria se alguém dissesse que sua roupa é ridícula? Se você estudasse muito para uma prova e tirasse nota baixa? Se você cumprimentasse outra pessoa e ela te ignorasse? A criança pode fazer desenhos e textos para cada situação. Explicar os efeitos de comportamento inadequado nas outras pessoa (ex.: gargalhar quando está ansioso). O mesmo para linguagem corporal inadequada. Podemos filmar a pessoa e treinar outros modos de expressão. Facilitar a expressão dos sentimentos com perguntas chave ou estimular a criação de um diário.
Capítulo 3 : Linguagem
Quase 50% das crianças com Asperger tem atraso de linguagem. Além disso, parecem ser menos capazes de manter uma conversação natural, sendo que as diferenças aparecem em áreas especificas: no modo como a linguagem é usada no contexto social, na semântica (duplos sentidos) e prosódia (ritmo, ênfase incomuns).
Critérios diagnósticos (Gillberg, 1989):
·         Atraso no desenvolvimento da fala.
·         Expressão superficialmente perfeita.
·         Linguagem formal, pedante.
·         Características de voz e prosódia peculiares.
·     Falhas na compreensão da linguagem, com erros de interpretação dos significados implícitos, leva “ao pé da letra”.
Outras descrições incluem falta de coerência, uso idiossincrático das palavras ou padrões repetitivos da fala.
Numa conversa com uma criança com Asperger podemos observar comentários irrelevantes para a situação ou que não seguem os códigos sociais ou culturais. Além disso, a criança não parece reconhecer as reações do seu interlocutor. A criança precisa ser orientada em relação aos comentários convencionais e apropriados às diversas situações, a maneira de esclarecer algum tópico confuso da conversa, a perceber o momento de não interromper a outra pessoa ou de não fazer comentários alheios ao assunto em questão.
Uma técnica foi desenvolvida com o objetivo de capacitar as crianças a entender aspectos da conversação que podem ser difíceis para elas. Nesta técnica são usadas figuras de pessoas e balões que representam as falas e os pensamentos das pessoas, como numa história em quadrinhos. Podemos desenhar os balões de diferentes maneiras de modo a indicar as diferentes emoções e também usar cores para simbolizar as emoções dos pensamentos (ex. azul para tristeza, verde para contentamentos, etc). Então podemos associar aspectos do tom da voz e da linguagem corporal que também expressam as emoções durante uma conversação. Esta técnica pode mostrar que cada pessoa pode ter diferentes pensamentos e sentimentos em cada situação, que podem não expressar em palavras o que estão sentindo e ainda mostrar alternativas de comentários para uma dada situação. Também podemos usa-la para mostrar como se muda um assunto e como incluir comentários que expressam simpatia pelo interlocutor.
Figuras de linguagem e expressões populares (caiu a ficha, o gato comeu sua língua, fica frio, etc) podem ser muito confusas para uma criança com Asperger e precisam ser explicadas. A mesma coisa acontece com brincadeiras que geralmente fazemos com as crianças, que podem ser mal interpretadas. Também pode haver problema em detectar mentira ou sarcasmo. Precisamos ter cuidado ao fazer comentários ou dar instruções.
Em conversas, nós mudamos o tom de voz e o volume para dar ênfase a certas palavras (Eu não disse que ela roubou o meu dinheiro). Crianças com Asperger normalmente não utilizam este recurso e não o reconhecem na fala de outra pessoa.
Algumas crianças com Asperger podem falar sozinhas (para “praticar frases” ou como ritual) e outras podem ter dificuldades em situações quando mais de uma pessoa está falando e algumas precisam que as frases sejam repetidas para que entendam o seu significado. Para estas ultimas é necessário dar instruções claras, com pausas para serem processadas, repeti-las de outra maneira ou mesma fornece-las por escrito.
Capítulo 4 :  Interesses e rotinas
Duas características da Síndrome de Asperger que ainda não foram adequadamente definidas na literatura são: a tendência de tornar-se fascinado por um interesse especial e a imposição de rotinas (rituais) que devem ser seguidas.
O interesse especial parece começar com coleções diversas e mais tarde evolui para assuntos específicos, os mais comuns sendo transporte, dinossauros, eletrônica e ciência. Isto aparentemente dá segurança e prazer à criança. Quando se torna um problema para a família, por sua intensidade ou estranheza, podemos tentar o acesso controlado ao seu interesse. Muitas vezes o interesse pode ser encorajado para um uso construtivo, para a incorporação de novos conhecimentos em sala de aula ou mesmo como uma vocação profissional, bem como para relaxamento e ampliação do contato social.
O estabelecimento de rituais leva a situações quando o não cumprimento destes leva à grande ansiedade e frustração da criança. Pode tornar-se mais intenso num período de mudanças na vida da pessoa ou em situações de ansiedade. É importante que a criança tenha uma rotina diária bem estabelecida, com uma seqüência de eventos definida para tornar a vida previsível. No fim do ano escolar devemos ter um preparo para as mudanças do próximo ano.
Capítulo 5 : Falta de habilidade motora
Uma certa falta de habilidade motora ocorre em 50 a 90% das crianças e adultos com Asperger. Na criança pequena pode ser manifestada por uma habilidade limitada para jogos com bola, dificuldade em amarrar sapatos e um andar característico. Na idade escolar notamos uma letra de mão ruim e falta de aptidão para esportes. Na adolescência uma minoria desenvolve tiques faciais ou piscam os olhos constantemente.
Locomoção: pode haver falta de coordenação entre os membros superiores e inferiores, dando uma aparência de “boneco” ao andar ou correr. Um fisioterapeuta pode desenvolver uma marcha mais natural e coordenada através de programas usando espelhos, música, dança. E interessante notar que a habilidade para nadar parece ser a menos afetada.
Jogos de bola: a coordenação pobre com a bola pode levar à exclusão da criança dos jogos das outras, portanto deve ser treinada para ter habilidade suficiente para incluir-se nas atividades.
Equilíbrio: pode precisar de treino para atividades que requerem equilíbrio.
Destreza manual: habilidade de realizar atividades que exigem o uso das duas mãos, tais como vestir-se, amarrar sapatos ou comer com garfo e faca. Pode afetar atividades de membros inferiores também, tal como andar de bicicleta. Uma estratégia útil é ensinar a criança com as mãos do adulto sobre as mãos da criança, gradualmente diminuindo o suporte.
Letra de mão: o professor pode passar um tempo considerável decifrando a letra da criança. A criança pode estar consciente da letra feia e evitar escrever. A ajuda de um terapeuta ocupacional pode ser necessária, mas a tecnologia moderna pode minimizar o problema, já que crianças com Asperger podem ser hábeis usando o teclado dos computadores. Permitir o uso do computador para fazer as lições e as avaliações pode igualar seu desempenho com o das outras crianças.
Ritmo: pode haver dificuldade para acompanhar o ritmo dos movimentos das outras pessoas ao andar ou tocar um instrumento, por exemplo.
Algumas desordens especificas: Síndrome de Tourette, três categorias: motora (tiques), vocal (sons incontroláveis de animais ou outros ou palilalia/ecolalia) e comportamental (comportamento obsessivo compulsivo). Catatonia ou características de Parkinson, rara.  Disfunção cerebelar.   
Capítulo 6 : Aspectos cognitivos
Cognição é o processo de construção do conhecimento e inclui pensamento, aprendizagem, memória e imaginação. Através da pesquisa no campo da psicologia cognitiva nossa compreensão a respeito da Síndrome de Asperger tem aumentado. Por volta dos quatro anos de idade, a criança começa a entender que as outras pessoas têm sentimentos, pensamentos, valores e desejos que vão influenciar seu comportamento. Portadores de Asperger parecem apresentar uma falha nesta habilidade fundamental. Por exemplo, eles podem não entender que um comentário pode ofender ou constranger uma pessoa e que um pedido de desculpas poderia ajudar a outra pessoa a sentir-se melhor. Durante a etapa do diagnóstico são usadas histórias para avaliar a capacidade da criança de considerar o pensamento ou sentimentos do outro. Mesmo quando são treinadas a reconhecer o que o outro possa pensar ou sentir, eles podem mostrar que são capazes de racionalizar essas reações, mas não de agir de acordo com elas numa situação. Parece haver uma dificuldade para perceber a relevância de diferentes tipos de conhecimento para a resolução de um problema especifico.
Habilidades nos Testes de Inteligência
Os testes de inteligência podem ser úteis para identificar as áreas em que a criança vai bem e aquelas em que tem dificuldade. Como os resultados geralmente são muito discrepantes (bons quando se avalia significados de palavras, informação objetiva, aritmética e geometria e desapontadores em ítens que requerem compreensão e aptidão social), deve-se ter cautela em interpretar os testes. O padrão  mais importante do que o número obtido. O autor recomenda que os testes escolares sejam modificados de forma que o texto importante seja destacado, que o local tenha o mínimo de distrações e que haja tolerância com os problemas de letra e do tempo usado para escrever as respostas.
Memória
Geralmente os portadores de Asperger têm excelente memória, o que pode ser trabalhado para ser uma vantagem para eles.
Inflexibilidade de pensamento
O pensamento da pessoa com Asperger tende a ser rígido e não suportara mudanças ou falhas. Eles podem ter sempre a mesma abordagem para um problema, sendo menos capazes de aprender com os próprios erros. Podem persistir numa estratégia e não aceitam procurar outras alternativas. Isto pode causar vários problemas em sala de aula. Um modo de lidar com isso é sempre levar a criança a procurar as várias alternativas de cada situação.
Outra característica é que uma vez que a criança tenha aprendido uma atividade, ela pode não conseguir transferir ou generalizar seu conhecimento para outras situações. Pais e professores devem ficar atentos para isso.
Ler, soletrar e habilidade com números
Uma boa parte dos portadores de Asperger pode ficar nos dois extremos em sua habilidade com letras e números. Alguns desenvolvem hiperlexia, ou seja, o reconhecimento das palavras altamente desenvolvido, mas uma pobre compreensão das palavras ou do texto, enquanto outros apresentam dificuldade considerável decifrando o código da leitura. Outros são fascinados por números, embora usem métodos próprios e fora do comum para resolver problemas matemáticos. Isso deve ser levado em conta pelo professor. Pode haver um medo desproporcional de falhar ou ser imperfeito, sendo que algumas crianças nem começam uma atividade se suspeitam que podem não ser bem sucedidas. O professor precisa ser encorajador, evitando o tom de crítica. Se ocorrer um erro, agir naturalmente explicando que a tarefa realmente é difícil e que não é culpa da criança. Algumas crianças não pedem ajuda e o professor precisa estar atento para isso.
Parece haver um distúrbio da atenção e mesmo acontecer que a pessoa com Asperger também apresente Transtorno de Déficit de Atenção. Ocasionalmente a criança parece estar no mundo da lua, mas está escutando tudo. Outra característica é a falta de motivação para atividades pouco interessantes para ela.
Imaginação
A brincadeira imaginativa da criança com Asperger pode ser muito criativa, mas geralmente solitária ou com regras rígidas. Crianças mais velhas podem desenvolver uma rica e imaginativa vida interior, como uma forma de escape ou por prazer, o que pode levar ao início de uma carreira acadêmica ou a um hobby. Um aspecto negativo é que a criança tem dificuldade de distinguir realidade e ficção.
Pensamento visual
Evidências sugerem que o pensamento das pessoas com Asperger seja predominantemente do tipo visual. A desvantagem é que muito do conteúdo escolar é apresentado para o modo verbal de pensamento, razão pela qual devemos usar diagramas ou analogias visuais para ensinar. Entretanto, o pensamento visual é uma grande vantagem para a área da ciência e da arte, já que permite recriar objetos de maneira original.
Capítulo : 7 Sensibilidade sensorial
Cerca de 40% das crianças com Asperger apresentam uma percepção muito intensa de estímulos sensoriais comuns, embora sejam mais tolerantes a níveis moderados de dor. Pode haver extrema sensibilidade auditiva, táctil, visual e quanto ao gosto e textura dos alimentos.
A pouca resposta à dor faz com que os pais tenham que ser mais atentos aos seus sinais.
Capítulo 8 : Algumas questões comuns
A Síndrome pode ocorrer com algum outro distúrbio?
Sim, existem algumas condições médicas (esclerose tuberosa, neurofibromatose, paralisia cerebral) que constituem fatores de risco para Asperger. É possível que uma criança tenha também Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade associado e deve ser tratada para ambas.
Qual é a diferença entre Autismo de Alto Rendimento e Asperger?
O termo Autismo de Alto Rendimento foi criado para designar crianças que apresentaram sinais de autismo clássico nos primeiros anos de vida e então desenvolveram a habilidade de falar usando sentenças complexas, habilidades sociais básicas e capacidade intelectual dentro do normal. Crianças com Asperger não apresentaram características do autismo clássico em seus primeiros anos.
Meninas e meninos diferem quanto à expressão da Síndrome?
Para cada menina avaliada, temos 10 meninos, embora a evidência epidemiológica indique 1 menina afetada para cada 4 meninos. Os meninos têm déficits sociais maiores e maior propensão a comportamento agressivo ou inadequado, principalmente quando frustrados ou ansiosos. Meninas parecem mais capazes de imitar o comportamento de outras crianças. Aparentam ser mais imaturas do que diferentes das outras. A experiência clínica sugere que o prognóstico para as meninas seja melhor.
Como lidar com a ansiedade da criança?
A vida escolar costuma ser estressante para a criança. Ela nunca sabe quando seu comportamento vai ser inadequado para determinada situação. Para algumas, o nível de ansiedade é como a maré, períodos agitados seguidos por períodos calmos. Pais e professores devem notar os sinais de ansiedade na criança e conhecer os eventos que desencadeiam stress para ela. Para níveis baixos de ansiedade, indicamos atividades relaxantes (ambiente calmo, com música, massagem, tempo no computador ou com um livro que acha interessante). Outra opção são atividades esportivas para queimar energia. Se o recreio escolar for um problema, aconselha-se usar a primeira parte dele para brincar com outras crianças e o resto do tempo para brincar no computador ou ficar na biblioteca. Isso faz com que se acalme para o resto do período. Algumas crianças precisam de intervalos pequenos ao longo das aulas.
Muitas crianças com Asperger têm uma preocupação exagerada em não parecer burras perante as outras e não pedem ajuda ou assistência do professor quando necessitam. Neste caso, pode-se combinar um código entre a criança e o professor para pedir ajuda sem chamar a atenção das outras crianças. Alguns casos se beneficiam de terapia cognitivo-comportamental e medicação.
Há risco de depressão?
O risco é um pouco maior do que na população normal, porém tende a ocorrer na adolescência e vida adulta como reação às circunstâncias ocasionadas pela Síndrome (falta de amigos e vida social, pouco sucesso na escola e no trabalho). É importante que a família fique atenta às diferentes maneiras da pessoa expressar seus sentimentos (riso excessivo, indiferença).
Como lidar com a raiva da criança?
As crianças com Asperger parecem provocar os instintos protetores ou predatórios nas outras. Algumas crianças gostam de fazer brincadeiras de mau gosto ou armar situações para o colega com Asperger se meter em encrencas. A criança com Asperger tende a reagir furiosamente, pois lhe falta empatia, sutileza e auto-controle para moderar sua reação e acaba por ser vista como agressiva.
Podemos usar a estratégia de explicar sentimentos, encorajar auto-controle (contar até dez, dar uma volta, respirar fundo) e ensinar opções (usar palavras, sair de perto da situação, pedir a outra pessoa que saia, buscar ajuda de um adulto).
Mulheres podem se tornar o alvo da raiva, pois costumam reagir menos.
Relaxamento e atividades físicas são também opções.
Para crianças mais velhas, a técnica das histórias em quadrinhos pode ser usada, explorando os sentimentos e as ações.
Medicação pode ser útil em períodos particularmente estressantes.
O que muda na adolescência?
Os adolescentes ficam mais sensíveis às críticas, percebem mais as diferenças entre si mesmos e seus amigos e tendem a ter exacerbações dos sinais da Síndrome. As mudanças emocionais tendem a ocorrer mais tarde, bem como interesses românticos.
Quais recursos são necessários para a criança?
Geralmente as crianças freqüentam escolas regulares. O mais importante é o acesso da família e dos professores à informação. Em alguns casos, um tutor para a criança é aconselhável. Suas principais responsabilidades são: encorajar a socialização da criança, ajudando a criança a reconhecer os códigos de conduta e a desenvolver suas habilidades e talentos, trabalhar a coordenação motora, ajudar nos problemas de aprendizagem. Ou seja, o tutor aplica um programa desenvolvido pelo professor e por diversos especialistas que abrange habilidades sociais, lingüísticas, motoras, sensoriais e comportamentais.
Que qualidades devemos buscar na escola ou professor?
A criança com Asperger é um desafio e a expressão dos sinais pode variar dia a dia. Num dia ela pode estar calma, concentrada nas atividades, relaciona-se bem com os outros e absorve o conteúdo das aulas. No dia seguinte pode parecer outra criança. Portanto o mais importante é que o professor seja calmo, flexível, previsível em suas reações e que seja capaz de ver o lado bom da criança. Não há necessidade de experiência anterior. Pode levar um tempo para que aprenda a se relacionar com a criança. Classes pequenas e mais tranqüilas, com uma atmosfera de encorajamento favorecem a criança. Quando o professor apóia a criança com Asperger, as outras crianças da classe tendem a fazer o mesmo. Também é importante que o professor receba apoio dos colegas e da administração da escola. Alguns ajustes poderão ser necessários para as avaliações da criança.
O que podemos esperar do futuro?
Pessoas com Asperger podem ser extremamente bem sucedidas em suas vidas profissionais, podem formar suas famílias e desenvolver suas habilidades sociais até ao ponto em que não possam mais ser distinguidas das outras pessoas. Isso depende do grau da expressão da Síndrome e do tipo de assistência que receberam ao longo da vida.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Coisas que os pais podem fazer se a criança gagueja


Coisas que os pais podem fazer se a criança gagueja 

Se suspeitarmos que nosso filho tenha um transtorno da fala, a primeira coisa que temos que fazer é observá-lo. Quando a criança gagueja? Em quais situações? Quem está presente? É um comportamento que se repete de forma contínua ou que só aparece em momentos isolados?  
É necessário saber quando, onde, como e com quem acontece para poder estabelecer o porquê, a causa da dita gagueira. Muitas vezes existe uma predisposição genética à gagueira, por isso convém averiguar se algum dos pais teve esse problema na infância. 

Atividades e jogos para ajudar crianças gagas

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Outro ponto fundamental a ser levado em conta é a idade da criança, pois existe uma gagueira evolutiva que aparece em torno dos 3 ou 4 anos de idade em que a criança tende a repetir as palavras, ou em ocasiões ‘se trava’ e não sabe continuar. Se o nosso filho já tem mais de 5 anos e continua ou a gagueira tenha acentuado convém pedir ajuda e avaliar o problema para poder iniciar uma intervenção. 

1. Não terminem as frases da criança. Tem que aprender a falar por si mesma para que veja que pode enfrentar o problema e sair vitoriosa do mesmo. 
2. Não zombar dela, chatear-se ou menosprezá-la quando o problema acontecer. 
3. Não interrompê-la, deixar-lhe que acabem as frases. Você pode animá-la a terminar, com palavras de alento ou um sorriso. 
4. Gravar-lhe quando fala devagar e quando fala depressa para que a criança se ouça e veja as diferenças. 
5. Cantar com ela e de novo gravar-lhe para que se escute e que veja que quando canta não gagueja. Explique a ela que isso acontece porque cantando ela ‘administra’ melhor a quantidade de ar para expulsar.
6. Trabalhar com a criança a respiração diafragmática (que aprenda a fazer uma respiração profunda em que o ar chegue ao diafragma ou ao ventre).  
7. Fazer exercícios de sopro, como encher balões, soprar velas, soprar língua de sogra... Dessa forma conseguiremos fortalecer os órgãos fonadores. 
8. Alongar as cordas vocais ao falar. Isso, sobretudo podemos fazer enquanto a criança leia. 
9. Trabalhar o turno de palavras, como, por exemplo, os pais iniciam uma frase, param e pedem para que a criança termine. 
10. Controlar as condutas de ansiedade da criança. Trabalhar com ela o medo de gaguejar. 
Silvia Álava Sordo
Psicóloga

domingo, 19 de fevereiro de 2017

PAIS QUE NÃO TRABALHAM E DEIXAM OS FILHOS O DIA TODO NOS CEI SERÃO PROCESSADOS.

PAIS QUE NÃO TRABALHAM E DEIXAM OS FILHOS O DIA TODO NOS CEI SERÃO PROCESSADOS.

Por Ana Cristina Santos


A Secretaria Municipal de Educação e o Ministério Público Estadual vão fazer um levantamento para verificar se os pais que deixam os filhos o dia todo nos Centros de Educação Infantil (CEIs) de Três Lagoas, trabalham. Denúncias protocoladas no Ministério Público Estadual revelam que, em Três Lagoas, existem mães que não trabalham e deixam o filho em período integral nos CEIs, enquanto que, algumas que exercem atividade laboral o dia todo, não conseguem vaga. A revelação foi feita por Ana Cristina Carneiro Dias, titular da Promotoria da Infância e Juventude de Três Lagoas.
De acordo com a promotora, a legislação prevê que o aluno tem direito a educação infantil em meio período. Já as mães que trabalham, tem direito de deixar os filhos em período integral. “A mãe, ou o pai que não executa atividade laboral, não têm o direito de manter os filhos nas creches em período integral. É até uma injustiça com alguém que realmente precisa trabalhar”, disse a promotora.
A legislação diz que é preciso levar em conta que a criança não deve permanecer em ambiente institucional e coletivo por jornada excessiva, sob o risco de não ter atendidas suas necessidades de recolhimento, intimidade e de convivência familiar. “Temos muitas famílias que querem delegar ao Estado, ao Município, ao professor e diretor, a orientação e educação do seu filho. A criança tem direito a convivência familiar. Que hora que a criança fica com os pais? Costumo dizer que: mais importante do que um tênis e um celular, é o tempo com o seu filho. Não adianta achar que os avós, tio, sobrinho, primo, vai educar seu filho, que não vai. Estou cheio de exemplos desse na promotoria”, disse.
Ainda de acordo com a promotora, denúncia feita por uma diretora revela que mães estariam entregando atestados de trabalho falsos. Ela já adiantou que essas pessoas vão responder na esfera criminal. “Existem mães que chegam nos CEIs de roupinha curta, de bustiê, com trajes típicos de quem não está trabalhando, mas querem deixar os filhos o dia todo. Se essa mãe apresentou um atestado falso, será processada judicialmente e criminalmente . Isso não é aceitável, até porque, se ela está querendo uma educação para o filho, que exemplo, está dando. A educação começa em casa”, ressaltou a promotora.
A maior dificuldade para conseguir vaga é justamente na educação infantil. O município não consegue atender a demanda de 0 a 3 anos. A Secretaria de Educação vai realizar, inclusive, um mapeamento para verificar as regiões que necessitam de mais salas nos CEIs.

http://www.jpnews.com.br/noticias/2017/1895514/pais-que-no-trabalham-e-deixam-filhos-o-dia-todo-em-ceis-sero-processados

quarta-feira, 22 de julho de 2015

“Transformamos problemas cotidianos em transtornos mentais”

ENTREVISTA | ALLEN FRANCES

“Transformamos problemas cotidianos em transtornos mentais”

Catedrático emérito da Universidade Duke comandou a redação da ‘bíblia’ dos psiquiatras


Allen Frances neste mês, em Barcelona. / JUAN BARBOSA
Allen Frances (Nova York, 1942) dirigiu durante anos o Manual Diagnóstico e Estatístico (DSM), documento que define e descreve as diferentes doenças mentais. Esse manual, considerado a bíblia dos psiquiatras, é revisado periodicamente para ser adaptado aos avanços do conhecimento científico. Frances dirigiu a equipe que redigiu o DSM IV, ao qual se seguiu uma quinta revisão que ampliou enormemente o número de transtornos patológicos. Em seu livro Saving Normal (inédito no Brasil), ele faz uma autocrítica e questiona o fato de a principal referência acadêmica da psiquiatria contribuir para a crescente medicalização da vida.
Pergunta. No livro, o senhor faz um mea culpa, mas é ainda mais duro com o trabalho de seus colegas do DSM V. Por quê?
Resposta. Fomos muito conservadores e só introduzimos [no DSM IV] dois dos 94 novos transtornos mentais sugeridos. Ao acabar, nos felicitamos, convencidos de que tínhamos feito um bom trabalho. Mas o DSM IV acabou sendo um dique frágil demais para frear o impulso agressivo e diabolicamente ardiloso das empresas farmacêuticas no sentido de introduzir novas entidades patológicas. Não soubemos nos antecipar ao poder dos laboratórios de fazer médicos, pais e pacientes acreditarem que o transtorno psiquiátrico é algo muito comum e de fácil solução. O resultado foi uma inflação diagnóstica que causa muito dano, especialmente na psiquiatria infantil. Agora, a ampliação de síndromes e patologias no DSM V vai transformar a atual inflação diagnóstica em hiperinflação.
P. Seremos todos considerados doentes mentais?
R. Algo assim. Há seis anos, encontrei amigos e colegas que tinham participado da última revisão e os vi tão entusiasmados que não pude senão recorrer à ironia: vocês ampliaram tanto a lista de patologias, eu disse a eles, que eu mesmo me reconheço em muitos desses transtornos. Com frequência me esqueço das coisas, de modo que certamente tenho uma demência em estágio preliminar; de vez em quando como muito, então provavelmente tenho a síndrome do comedor compulsivo; e, como quando minha mulher morreu a tristeza durou mais de uma semana e ainda me dói, devo ter caído em uma depressão. É absurdo. Criamos um sistema de diagnóstico que transforma problemas cotidianos e normais da vida em transtornos mentais.
P. Com a colaboração da indústria farmacêutica...

Não soubemos nos antecipar ao poder dos laboratórios de criar novas doenças
R. É óbvio. Graças àqueles que lhes permitiram fazer publicidade de seus produtos, os laboratórios estão enganando o público, fazendo acreditar que os problemas se resolvem com comprimidos. Mas não é assim. Os fármacos são necessários e muito úteis em transtornos mentais severos e persistentes, que provocam uma grande incapacidade. Mas não ajudam nos problemas cotidianos, pelo contrário: o excesso de medicação causa mais danos que benefícios. Não existe tratamento mágico contra o mal-estar.
P. O que propõe para frear essa tendência?
R. Controlar melhor a indústria e educar de novo os médicos e a sociedade, que aceita de forma muito acrítica as facilidades oferecidas para se medicar, o que está provocando além do mais a aparição de um perigosíssimo mercado clandestino de fármacos psiquiátricos. Em meu país, 30% dos estudantes universitários e 10% dos do ensino médio compram fármacos no mercado ilegal. Há um tipo de narcótico que cria muita dependência e pode dar lugar a casos de overdose e morte. Atualmente, já há mais mortes por abuso de medicamentos do que por consumo de drogas.
P. Em 2009, um estudo realizado na Holanda concluiu que 34% das crianças entre 5 e 15 anos eram tratadas por hiperatividade e déficit de atenção. É crível que uma em cada três crianças seja hiperativa?
R. Claro que não. A incidência real está em torno de 2% a 3% da população infantil e, entretanto, 11% das crianças nos EUA estão diagnosticadas como tal e, no caso dos adolescentes homens, 20%, sendo que metade é tratada com fármacos. Outro dado surpreendente: entre as crianças em tratamento, mais de 10.000 têm menos de três anos! Isso é algo selvagem, desumano. Os melhores especialistas, aqueles que honestamente ajudaram a definir a patologia, estão horrorizados. Perdeu-se o controle.
P. E há tanta síndrome de Asperger como indicam as estatísticas sobre tratamentos psiquiátricos?
R. Esse foi um dos dois novos transtornos que incorporamos no DSM IV, e em pouco tempo o diagnóstico de autismo se triplicou. O mesmo ocorreu com a hiperatividade. Calculamos que, com os novos critérios, os diagnósticos aumentariam em 15%, mas houve uma mudança brusca a partir de 1997, quando os laboratórios lançaram no mercado fármacos novos e muito caros, e além disso puderam fazer publicidade. O diagnóstico se multiplicou por 40.
P. A influência dos laboratórios é evidente, mas um psiquiatra dificilmente prescreverá psicoestimulantes a uma criança sem pais angustiados que corram para o seu consultório, porque a professora disse que a criança não progride adequadamente, e eles temem que ela perca oportunidades de competir na vida. Até que ponto esses fatores culturais influenciam?

Os seres humanos sobrevivem há milhões de anos graças à capacidade de confrontar a adversidade
R. Sobre isto tenho três coisas a dizer. Primeiro, não há evidência em longo prazo de que a medicação contribua para melhorar os resultados escolares. Em curto prazo, pode acalmar a criança, inclusive ajudá-la a se concentrar melhor em suas tarefas. Mas em longo prazo esses benefícios não foram demonstrados. Segundo: estamos fazendo um experimento em grande escala com essas crianças, porque não sabemos que efeitos adversos esses fármacos podem ter com o passar do tempo. Assim como não nos ocorre receitar testosterona a uma criança para que renda mais no futebol, tampouco faz sentido tentar melhorar o rendimento escolar com fármacos. Terceiro: temos de aceitar que há diferenças entre as crianças e que nem todas cabem em um molde de normalidade que tornamos cada vez mais estreito. É muito importante que os pais protejam seus filhos, mas do excesso de medicação.
P. Na medicalização da vida, não influi também a cultura hedonista que busca o bem-estar a qualquer preço?
R. Os seres humanos são criaturas muito maleáveis. Sobrevivemos há milhões de anos graças a essa capacidade de confrontar a adversidade e nos sobrepor a ela. Agora mesmo, no Iraque ou na Síria, a vida pode ser um inferno. E entretanto as pessoas lutam para sobreviver. Se vivermos imersos em uma cultura que lança mão dos comprimidos diante de qualquer problema, vai se reduzir a nossa capacidade de confrontar o estresse e também a segurança em nós mesmos. Se esse comportamento se generalizar, a sociedade inteira se debilitará frente à adversidade. Além disso, quando tratamos um processo banal como se fosse uma enfermidade, diminuímos a dignidade de quem verdadeiramente a sofre.
P. E ser rotulado como alguém que sofre um transtorno mental não tem consequências também?
R. Muitas, e de fato a cada semana recebo emails de pais cujos filhos foram diagnosticados com um transtorno mental e estão desesperados por causa do preconceito que esse rótulo acarreta. É muito fácil fazer um diagnóstico errôneo, mas muito difícil reverter os danos que isso causa. Tanto no social como pelos efeitos adversos que o tratamento pode ter. Felizmente, está crescendo uma corrente crítica em relação a essas práticas. O próximo passo é conscientizar as pessoas de que remédio demais faz mal para a saúde.
P. Não vai ser fácil…
R. Certo, mas a mudança cultural é possível. Temos um exemplo magnífico: há 25 anos, nos EUA, 65% da população fumava. Agora, são menos de 20%. É um dos maiores avanços em saúde da história recente, e foi conseguido por uma mudança cultural. As fábricas de cigarro gastavam enormes somas de dinheiro para desinformar. O mesmo que ocorre agora com certos medicamentos psiquiátricos. Custou muito deslanchar as evidências científicas sobre o tabaco, mas, quando se conseguiu, a mudança foi muito rápida.
P. Nos últimos anos as autoridades sanitárias tomaram medidas para reduzir a pressão dos laboratórios sobre os médicos. Mas agora se deram conta de que podem influenciar o médico gerando demandas nos pacientes.
R. Há estudos que demonstram que, quando um paciente pede um medicamento, há 20 vezes mais possibilidades de ele ser prescrito do que se a decisão coubesse apenas ao médico. Na Austrália, alguns laboratórios exigiam pessoas de muito boa aparência para o cargo de visitador médico, porque haviam comprovado que gente bonita entrava com mais facilidade nos consultórios. A esse ponto chegamos. Agora temos de trabalhar para obter uma mudança de atitude nas pessoas.
P. Em que sentido?
R. Que em vez de ir ao médico em busca da pílula mágica para algo tenhamos uma atitude mais precavida. Que o normal seja que o paciente interrogue o médico cada vez que este receita algo. Perguntar por que prescreve, que benefícios traz, que efeitos adversos causará, se há outras alternativas. Se o paciente mostrar uma atitude resistente, é mais provável que os fármacos receitados a ele sejam justificados.
P. E também será preciso mudar hábitos.
R. Sim, e deixe-me lhe dizer um problema que observei. É preciso mudar os hábitos de sono! Vocês sofrem com uma grave falta de sono, e isso provoca ansiedade e irritabilidade. Jantar às 22h e ir dormir à meia-noite ou à 1h fazia sentido quando vocês faziam a sesta. O cérebro elimina toxinas à noite. Quem dorme pouco tem problemas, tanto físicos como psíquicos